QUILOMBO DO ALTO CAMORIM

Em 2004, o presidente da Associação Cultural do Camorim (ACUCA), Adilson Batista de Almeida, solicitou a abertura do processo administrativo para titulação de parte do território do Camorim como remanescente de quilombo no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA). Em junho de 2013, a área foi certificada pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo. Apesar da certificação, Almeida relata que no mesmo ano a comunidade recebeu um ofício do INCRA informando que a área reivindicada não correspondia a um território quilombola. Sendo assim, o processo foi arquivado. Logo em seguida, uma construtora (Cyrela) comprou o mesmo território e construiu o Barra Media Village 3 (Vila da Mídia 3), local onde os jornalistas do mundo inteiro ficaram hospedados na ocasião dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Diante da mobilização da comunidade, a construtora doou uma parte do terreno para a Prefeitura. É essa a área que os quilombolas buscam titular e construir uma sede para a associação.
A comunidade quilombola tem realizado atividades para chamar a atenção para os grandes problemas que vem enfrentando e afirma que não irá abrir mão de seus direitos. “Assim como no passado colonial, o quilombo do Camorim segue ainda hoje na luta pela preservação da natureza e da identidade cultural que os portugueses colonizadores e os governantes atuais insistem em desrespeitar”.

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Origem do nome: Significado da palavra camorim: Camorim é um peixe pequeno (...)
assa: estimado por doentes, com se pescarem em grandes quantidades (...).
s.I.,1618 - Ambrósio Fernandes Brandão. Diálogos das Grandezas do Brasil, p.
227.229
Processo: -
Certificada
Município /
Localização: Rio
de Janeiro
Estágio no
processo e regularização territorial: Certificada pela Fundação Cultural Palmares em 25/06/2013 - processo 01420.007233/2013-88 –
Referência:
LAO,
Jaqueline Pedrosa. Quilombando na sala de aula: um estudo sobre a comunidade
remanescente de quilombo do Camorim (RJ-2014). Monografia de Licenciatura em
História - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. UNIRIO,
2014.
RODRIGUEZ, Luz Stella. Transformações da Paisagem e a Memória em Camorim. Antíteses, v. 7, n. 14, p. 171-198, 2014.
Pesquisas: Daniela Yabeta Historiadora - PÓS-DOC (UFF-FAPERJ)
Verbete atualizado em 23/02/2021.
Quilombo do Camorim ou Quilombo do Alto Camorim
UF: RJ
Município Atingido: Rio de Janeiro (RJ)
Outros Municípios: Rio de Janeiro (RJ)
População: Quilombolas
Impactos Socioambientais: Alteração no regime tradicional de uso e ocupação do
território, Desmatamento e/ou queimada, Falta / irregularidade na demarcação de
território tradicional, Invasão / dano a área protegida ou unidade de
conservação.
Danos à Saúde: Insegurança alimentar, Piora na qualidade de vida,
Violência psicológica.
Atividades Geradoras do
Conflito: Atuação de entidades
governamentais, Especulação imobiliária, Implantação de áreas protegidas,
Mega-eventos, Políticas públicas e legislação ambiental.
SÍNTESE
A comunidade de remanescentes de quilombo Alto Camorim se
localiza no bairro Camorim há mais de cem anos, na zona oeste da cidade do Rio
de Janeiro/RJ. Acredita-se que o quilombo Camorim tenha sido formado em 1625
pelos negros que fugiram da fazenda de Gonçalo Sá – sesmeiro que tinha a posse
das terras que atualmente corresponde ao bairro Camorim.
O bairro compõe a área do Parque Estadual da Pedra Branca
(PEPB), criado em 28 de junho de 1974, que ocupa 10% do território do município
do Rio de Janeiro, ou 12,5 mil hectares, sendo a maior unidade de conservação
da cidade – quatro vezes maior que a Floresta da Tijuca.
CONTEXTO AMPLIADO
A comunidade de remanescentes de quilombo Alto Camorim se
localiza no bairro Camorim, na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro/RJ. O
nome do bairro é de origem tupi CAMURY, que significa mata com muitos mosquitos
CA (Mata) e MURY (mosca ou mosquitos), segundo informações divulgadas no site
Multirio (08/04/2014).
O bairro Camorim compõe a área do Parque Estadual da Pedra
Branca (PEPB), que tem 12,5 mil hectares e se estende por mais 16 bairros da
região oeste, sendo esses: Jacarepaguá, Taquara, Vargem Pequena, Vargem Grande,
Recreio dos Bandeirantes, Grumari, Padre Miguel, Bangu, Senador Camará, Jardim
Sulacap, Realengo, Santíssimo, Campo Grande, Senador Vasconcelos, Guaratiba e
Barra de Guaratiba.
A ocupação da família Sá significou a chegada do primeiro
contingente de negros escravizados na região, no ano de 1614. Foi por meio da
mão de obra escrava que ocorreram as construções e, posteriormente, a produção
de açúcar no Engenho. Onze anos depois, em 1625, surgiu um dos primeiros
quilombos da cidade do Rio de Janeiro colonial: o Quilombo do Camorim. O que
indica que as lutas dos negros não tardaram a brotar frente à escravidão
desumana que sofriam, segundo notícia publicada pelo IHBAJA (28/03/2014).
Ainda de acordo com a fonte supracitada, não se tem
notícias de quantos anos durou o Quilombo do Camorim, apenas que este surgiu no
início do século XVII concomitantemente à ocupação da região oeste. E que, além
da comunidade dos Camorim, sabe-se que as encostas entre a Serra dos Três Rios
e a da Covanca – onde está situada a serra dos Pretos Forros -, e a região da
Taquara, também foram locais que abrigaram negros nesse período.
Segundo notícia do Multirio (08/04/2014) e do IHBAJA
(28/03/2014), durante o século XX, muitas comunidades pobres se constituíram na
região oeste, ao mesmo tempo em que as transações comerciais de terrenos na
área se intensificaram. Este processo se consolidou a partir de 1936, quando a
Empresa Saneadora Territorial Agrícola, de Francis Walter Hime, veio a assumir
as ações de loteamento e urbanização da região, suscitando práticas de
especulação imobiliária, as quais podem ser percebidas nos dias atuais.
Praticamente 40 anos depois, em 28 de junho de 1974, foi
criado o Parque Estadual da Pedra Branca (PEPB), área de conservação ambiental,
através da Lei nº 2.377, circunscrevendo grande parte da zona oeste. O Parque
ocupa 10% do território do município do Rio de Janeiro, sendo a maior unidade
de conservação da cidade quatro vezes maior que a Floresta da Tijuca.
Acredita-se que, entre as 900 espécies de plantas na área, 267 são endêmicas
daquele bioma e, em relação à fauna, foram identificados, no total, 479
espécies, incluindo animais em extinção, como o gavião-pombo-pequeno e
apuim-de-costas-pretas. Além disso, na área se localiza o ponto mais alto do
município, o Pico da Pedra Branca, atrativo que intensifica o turismo de
aventura na região – informações de acordo com as reportagens do Rio on Watch
(18-01-2013) e do Multirio (08/04/2014).
De acordo com a notícia do IHBAJA (28/03/2014), toda essa
riqueza natural fez com que se dinamizasse a expansão do capital imobiliário na
região, ameaçando as comunidades que vivem nas áreas próximas ao Parque ou
dentro do mesmo. Em contraposição a esses processos, em 2004, os moradores do
Alto Camorim criaram a Associação Cultural do Camorim (ACUCA), e solicitaram ao
INCRA o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID). Relatório que,
de acordo com o decreto nº 4.887, de 20 de novembro de 2003 – e que trata do
artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias -, regulamenta o
procedimento para identificação, reconhecimento, delimitação, demarcação e
titulação das terras ocupadas por remanescentes dos quilombos.
A ACUCA significou também um caminho para os moradores do
Alto Camorim resgatarem sua história. Segundo a mesma reportagem, no mesmo ano
da formalização, em 2004, a Associação pleiteou à Prefeitura um espaço para o
desenvolvimento de atividades para exercício da memória e de identidade
cultural quilombola dos moradores da área. Todavia, ainda não obtiveram apoio
para a criação do espaço.
Há dez anos os remanescentes
de quilombo do Camorim vêm pleiteando o RTID e um espaço para o desenvolvimento
de atividades culturais da comunidade. Recentemente, segundo reportagem o
IHBAJA (21/03/2014), o prefeito Eduardo Paes, solicitou o projeto de Desenvolvimento
Cultural Quilombola e esse foi enviado para seu gabinete. Entretanto ainda não
obtiveram nenhuma resposta sobre nenhum dos processos.
A Comunidade quilombola do Alto Camorim
não vai abrir mão de seus direitos: “Assim como no passado colonial, o quilombo
do Camorim segue ainda hoje na luta pela preservação da natureza e da
identidade cultural que os portugueses colonizadores e os governantes atuais
insistem em desrespeitar.”
Apesar de um centro cultural não
restaurar o território que aquela comunidade já perdeu, ele pode servir para
preservar a riqueza histórica, cultural, ambiental e política que o Quilombo do
Camorim tem cultivado por gerações.
CRONOLOGIA
1597 – A área entre a restinga da Tijuca e Guaratiba é doada
pela Coroa Portuguesa à família Sá; a área que hoje corresponde ao bairro
Camorim foi a sesmaria concedida a Gonçalo de Sá.
1614
Chega o primeiro contingente de negros na região, que vieram a ser escravizados
pela família Sá.
1625 –
Surge um dos primeiros quilombos da cidade do Rio de Janeiro colonial: o
Quilombo do Camorim.
Durante
o século XX Muitas comunidades pobres se constituem na região oeste, ao mesmo
tempo em que as transações comerciais de terrenos na área se intensificam.
1936 –
Empresa Saneadora Territorial Agrícola, de Francis Walter Hime, assume as ações
de loteamento e urbanização da região, suscitando práticas de especulação
imobiliária, as quais podem ser percebidas nos dias atuais.
28 de junho de 1974 – Criado o Parque Estadual da Pedra Branca, área de
conservação ambiental através da Lei nº 2.377, circunscrevendo grande parte da
zona oeste, inclusive o bairro Camorim.
2004 –
Moradores do Alto Camorim criam a Associação Cultural do Camorim (ACUCA), e
solicitam ao INCRA o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RTID).
Pleiteiam à Prefeitura um espaço para o desenvolvimento de atividades para
exercício da memória e de identidade cultural quilombola dos moradores da área.
Junho de 2012 – Conselho Consultivo do Parque Estadual da Pedra Branca
apresenta a proposta de incluir no Plano de Manejo do Parque a regulamentação
fundiária das populações tradicionais que vivem na área antes da criação do
Parque, como o caso do Alto Camorim.
12 de dezembro de 2012 – Realizada uma reunião do Conselho Consultivo do Parque
Estadual da Pedra Branca com os representantes do Instituto Estadual do Meio
Ambiente (INEA), na sede Pau-da-Fome do Parque. O administrador do Parque,
Alexandre Pedroso, informa a finalização do Plano de Manejo do PEPB e que, no
Parque, não poderá haver mais moradia, contrariando o direito de participação
do Conselho na construção do Plano.
Início de 2014 – Grande área próxima à Igreja São Gonçalo do Amarante é
devastada pela Living Construtora, marca da RJZ Cyrela. A área era ocupada por
arvores centenárias do Maciço da Pedra Branca e, segundo os moradores, os
tratores também aterraram o que sobrou de um dos prováveis locais da senzala da
Fazenda Camorim, do início do século XVII.
23 de março de 2014 – Moradores do Alto Camorim realizam atividade de
resistência cultural com o objetivo de reafirmar a luta das famílias pela
regularização fundiária, pelo direito de cultivar a terra e pela construção do
Centro de Desenvolvimento Cultural Quilombola do Camorim.
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FONTES:
INSTITUTO
HISTÓRICO DA BAIXADA DE JACAREPAGUÁ. Atividade Cultural Quilombola na Comunidade do Alto Camorim, em
Jacarepaguá. Publicado em 21 de março de 2014. Disponível em:
http://goo.gl/LeI6VO. Acessado em: 12 de maio de 2014.
_____.
IHBAJA participa de evento
Cultural de Resistência Quilombola organizada por moradores da comunidade do
Alto Camorim. Publicado em 28 de março de 2014. Disponível em: http://goo.gl/VDWTl3.
Acessado em: 12 de maio de 2014.
JORNAL
ABAIXO ASSINADO DE JACAREPAGUÁ. Jornal Projeto do Desenvolvimento Cultural Quilombola no
Camorim. Publicado em março de 2014 – n° 69. Disponível em:
http://goo.gl/R10mv9. Acessado em: 12 de maio de 2014.
JORNAL
BRASIL DE FATO.
Megaeventos ameaçam agricultores e povos tradicionais no RJ. Publicado em 27 de
março de 2014. Disponível em: http://goo.gl/v7FGAc. Acessado em: 12 de maio de
2014.
MULTIRIO. Camorim, patrimônio natural a ser
preservado. Publicado em 08 de abril de 2014. Disponível em:
http://goo.gl/meFmS9. Acessado em: 12 de maio de 2014.
RIO
ON WATCH. Conselho
Consultivo e Povos Tradicionais do Parque Estadual da Pedra Branca Questionam
Remoções Marcadas pelo INEA. Publicado em 18 de janeiro de 2013. Disponível em:
http://goo.gl/nFzJ83. Acessado em: 12 de maio de 2014.
.
O Passado e Presente de Alto Camorim. Publicado em 22 de outubro de 2010. Disponível em:
http://goo.gl/kbyrdz. Acessado em: 12 de maio de 2014.
VÍDEOS SOBRE ESPAÇOS DE MEMÓRIA,
PATRIMÔNIO E TERRITÓRRIOS
Quilombo
do Camorim: “Uma História de
Preservação e Resistência”
https://www.youtube.com/watch?v=e59lvyb-qYo
Quilombo do Camorim: “Resgate da
Memória”
https://www.youtube.com/watch?v=v6M9SBqn21Q
Quilombo do
Camorim: “Raízes e memória”
https://www.youtube.com/watch?v=GLRFg_Ce_iw
Quilombo do Camorim: “Terreno do foi reconhecido como
sítio arqueológico pelo IPHAN”
https://nabarra.tv/quilombo-do-camorim-agora-e-tombado-pelo-iphan_65771b9a3.html
Quilombo do
Camorim: “Patrimônio do Quilombo, Igreja de São Gonçalo do Amarante”
https://www.youtube.com/watch?v=WLhXtVixfWU






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